Processo de desertificação atinge 62 municípios e 5 novas áreas no RN, aponta estudo

Área em processo de desertificação em Cruzeta, no interior do Rio Grande do Norte — Foto: Divulgação
Área em processo de desertificação em Cruzeta, no interior do Rio Grande do Norte — Foto: DivulgaçãoProcesso de Desertificação em Olho D'Água do Borges (RN), Rio Grande do Norte — Foto: CedidaProcesso de Desertificação em Pau dos Ferros (RN) Rio Grande do Norte — Foto: CedidaProcesso de desertificação em Fernando Pedroza (RN) — Foto: CedidaPesquisadores Anny Catarina e Sérgio Domiciano — Foto: Cedida

Por g1 RN — Um estudo inédito de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou cinco novas Áreas em Processos de Desertificação (APD) no Rio Grande do Norte, o que faz o fenômeno atingir pelo menos 62 municípios do estado. Segundo o levantamento, isso representa cerca de 15% do território potiguar – 8.359 km².

Historicamente, o Rio Grande do Norte sempre considerou a existência de apenas uma área em processo de desertificação: o chamado Núcleo do Seridó – ou Seridó Oriental – com seis municípios. Essa APD tem território de 696 km² .

Nesta quarta-feira (17) é celebrado o Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação.

Os dados se referem a territórios delimitados pelo estudo: as bacias hidrográficas do Apodi-Mossoró e Piranhas-Açú, as duas maiores áreas hidrográficas do estado.

🔎 Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a desertificação é definida como um processo de degradação ambiental causado pelo manejo inadequado dos recursos naturais nos espaços áridos, semiáridos e subúmidos secos, que compromete os sistemas produtivos das áreas.

As cinco novas áreas apontadas na pesquisa são:

Os dados são resultado de uma pesquisa e monitoramento de quase 10 anos dos geógrafos Anny Catarina Nobre de Souza e Sérgio Domiciano Gomes de Souza. No estudo, eles investigam a ocorrência e a distribuição espacial da desertificação no RN.

A pesquisa mapeia os níveis de suscetibilidade à desertificação, onde o fenômeno pode ocorrer, e também identifica e delimita as Áreas em Processo de Desertificação.

Segundo os pesquisadores, as APDs são as áreas onde o fenômeno já está efetivamente instalado e produzindo impactos ambientais significativos.

“A principal contribuição do estudo é demonstrar, com base em evidências científicas – laboratoriais e de campo – que a desertificação no Rio Grande do Norte é mais ampla do que se imaginava, ultrapassando os limites do tradicional Núcleo do Seridó e alcançando novas áreas do Oeste e da região central do estado”, explicou Anny Catarina.

Além da identificação das novas cinco áreas, o estudo atualiza ainda o Núcleo Seridó, única APD considerada anteriormente e considerada a área mais emblemática da desertificação no estado até então.

“Historicamente, o Núcleo Seridó é delimitado com base nos limites político-administrativos de seis municípios. Com a realização deste estudo, foi possível atualizar e refinar essa delimitação, identificando com maior precisão onde o processo ocorre, com base em critérios ambientais e não político-administrativos”, explicou o pesquisador Sérgio Domiciano de Souza.

Segundo a pesquisadora Anny Catarina Souza, a partir dos estudos de mapeamento é possível afirmar que o processo de desertificação no Rio Grande do Norte acontece pela combinação de fatores ambientais.

Os pesquisadores explicaram que o processo de desertificação – conforme a definição oficial adotada pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) – só ocorre nas chamadas “terras secas”, ou seja, naquelas que possuem climas áridos, semiáridos e subúmidos secos com índice de aridez variando de 0.05 a 0.65.

Segundo os pesquisadores, a desertificação, no geral, resulta da combinação entre fatores naturais e humanos.

O estudo aponta um monitoramento do processo de desertificação, através de dados por satélite, que indicam sinais de degradação ambiental persistentes há mais de 40 anos no RN – desde 1984 pelo menos.

O pesquisador Sérgio Domiciano de Souza explicou que a desertificação é um processo gradual, cumulativo e dinâmico, que não surge de forma repentina na paisagem, “pois é desencadeada por atividades humanas que degradam a terra, sobretudo extrativistas que suprimem a vegetação”.

Segundo o pesquisador, é possível afirmar que o processo remonta “ao próprio processo de ocupação territorial dessas localidades, desde os séculos passados”.

Os especialistas explicam que parte das terras em processo de desertificação pode ser recuperada, mas isso depende também do avanço do fenômeno e das intervenções feitas.

Nas áreas do Rio Grande do Norte, eles indicam que “não se pode afirmar que são irreversíveis, pois exigem estudos de outra complexidade”.

Apesar disso, a pesquisadora Anny Catarina Souza explica que a gravidade da desertificação nessas áreas “se dá exatamente pela configuração ambiental frágil em que impera especialmente restrições de solo e escassez hídrica com recorrência de secas que faz com que a própria natureza sozinha não tenha a capacidade de regenerar a biomassa, sobretudo quando submetida a constantes intervenções humanas”.

A geógrafa explica que, a depender do grau do processo, áreas podem ser recuperadas ou estabilizadas por meio da intervenção humana com práticas adequadas de manejo, restauração ambiental e tecnologias de convivência com o semiárido.

Entretanto, quanto mais avançado o processo, maior o custo e a dificuldade da recuperação, afirma.

“Logo, cabe afirmar que a irreversibilidade da desertificação está muito mais na capacidade sozinha da natureza de se regenerar, isto é, a resiliência natural dos solos, da vegetação, das condições climáticas dado o agravamento da degradação de voltar ao seu equilíbrio natural ou estado mais próximo”, falou.

Para os pesquidores, o primeiro passo de uma política pública para enfrentar a desertificação é reconhecer que ele é um fenômeno espacial.

“Disso resulta o que o Estado precisa saber: onde ocorre? Quais os níveis? O que causa? A quem afeta? Daí as ações deverão ser direcionadas a essas frentes”, falou o geógrafo Sérgio Domiciano.

Os pesquisadores apontam que o enfrentamento da desertificação exige ações integradas de curto, médio e longo prazo. Entre as principais medidas, ele cita:

Os resultados da pesquisa são frutos de uma investigação contínua dos pesquisadores, que estão em fase de conclusão do Doutorado em Geografia pela UFRN.

A pesquisa apontou os níveis de suscetibilidade à desertificação e as Áreas em Processo de Desertificação, que foram determinados da seguinte forma pelos pesquisadores:

Segundo o pesquisador Sérgio Domiciano, o estudo permite “localizar com maior precisão as áreas mais críticas em desertificação do estado de forma atualizada”, com: