MPF pede novamente na Justiça suspensão de licenças para construções na Via Costeira

Via Costeira em Natal — Foto: Sandro Menezes
Via Costeira em Natal — Foto: Sandro MenezesProjeto Costeira Parque, em Natal — Foto: Divulgação/governo do RN

Por g1 RN — O Ministério Público Federal (MPF) apresentou manifestação à Justiça Federal reafirmando a necessidade urgente de medida liminar para proibir construções nas áreas desocupadas da Via Costeira, em Natal.

A manifestação consolida os argumentos de uma ação civil pública ajuizada pelo MPF em dezembro do ano passado.

Segundo o MPF, a manifestação foi protocolada após uma audiência prévia, de 20 de maio, que reuniu especialistas e gestores públicos. Nessa audiência, um especialista falou sobre a possibilidade de um “esmagamento costeiro”, diante de problemas como elevação e avanço do mar e pressão marinha (veja mais abaixo).

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No documento enviado à Justiça, o órgão apontou que o município de Natal e o governo do RN não apresentaram provas técnicas capazes de contrapor os estudos científicos que apontam a fragilidade ecológica do litoral natalense e a necessidade de controle rígido das intervenções na área.

Segundo o MPF, o pedido de liminar foi reforçado por conta da possibilidade de riscos de novas autorizações para obras serem liberadas com base nas recentes flexibilizações do Plano Diretor de Natal e diante da omissão dos órgãos responsáveis.

➡️ Contexto: O Ministério Público Estadual do RN (MP-RN) já havia entrado com uma ação anterior e conseguido a suspensão das construções na Via Costeira na Justiça em 2025. A decisão, no entanto, foi suspensa. A prefeitura sancionou uma lei que permite construção de prédios residenciais e comerciais na área em dezembro de 2024.

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Venerando Amaro, perito designado pelo MPF, informou durante a audiência que o RN registra elevação do nível médio do mar de aproximadamente 3,7 mm a 5,6 mm por ano, índices que figuram entre os mais altos do país, o que agrava os processos erosivos e o risco de inundações.

O especialista utilizou o termo “esmagamento costeiro” para descrever a dinâmica que comprime o litoral entre duas forças simultâneas:

A análise técnica também indicou que obras de contenção construídas de forma isolada por hotéis e empreendimentos reduzem a faixa de praia e transferem o problema, agravando a erosão em áreas vizinhas.

Levantamentos topográficos comparativos de janeiro de 2023 e janeiro de 2024 apontaram a redução da faixa de areia nos trechos influenciados por essas estruturas pontuais, segundo o MPF.

Segundo o MPF, a legislação ambiental protege na integralidade o ecossistema de restinga no qual a Via Costeira se encontra, independente de toda a área estar coberta ou não por vegetação nativa.

O MPF informou que busca postura colaborativa para tentar construir soluções consensuais, especialmente no Costeira Parque.

Projeto de 34 mil metros quadrados e investimento de R$ 22 milhões, o Costeira Parque deu início à licitação em outubro do ano passado.

O MPF informou que realizou reuniões em dezembro de 2025 e maio de 2026 e flexibilizou suas propostas, aproveitando estudos ambientais já existentes e permitindo a continuidade de atividades sem impacto direto ao meio ambiente no local.

Segundo o MPF, o corpo técnico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema/RN) emitiu uma manifestação concordando com a necessidade de estudos complementares e monitoramento contínuo da costa. Além disso, o órgão ambiental estadual não comprovou o cumprimento de condicionantes básicas da licença atual por parte do empreendedor.

O parecer técnico-científico apresentado pelo especialista na audiência indicou que a abordagem atualmente adotada pelo projeto se mostra “tecnicamente indefensável” diante do cenário de vulnerabilidade geoambiental da orla marítima da capital potiguar.

No âmbito municipal, a Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb) defendeu uma análise fragmentada, “caso a caso”, para o licenciamento de novos empreendimentos, o que o MPF adverte que geraria profunda insegurança jurídica.

Buscando uma saída preventiva, o MPF enviou ofício à Semurb solicitando o compromisso de não emitir novas licenças urbanísticas até o pronunciamento judicial. Segundo o MPF, não houve resposta.