Quem é Fatoka: chefe do Comando Vermelho na PB é ligado a esquema que afastou prefeito de Cabedelo

Fatoka é chefe de organização criminosa na Paraíba — Foto: TV Cabo Branco
Fatoka é chefe de organização criminosa na Paraíba — Foto: TV Cabo BrancoEdvaldo Neto, afastado da prefeitura de Cabedelo, é o principal investigado — Foto: Plínio Almeida/TV Cabo Branco

Por g1 PB — O chefe da facção criminosa Comando Vermelho na Paraíba, Flávio de Lima Monteiro, mais conhecido como Fatoka, está ligado ao esquema investigado pela Polícia Federal na Prefeitura de Cabedelo, na Grande João Pessoa. Na terça-feira (14), o prefeito Edvaldo Neto (Avante) foi afastado do cargo. A investigação aponta o uso de empresas terceirizadas para a contratação de pessoas ligadas à facção, que eram indicadas por Fatoka.

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Essa ligação entre Fatoka e o poder público é citada na decisão que autorizou a operação, assinada pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB).

Além de Edvaldo Neto, principal alvo da operação, a PF mirou outras 12 pessoas, incluindo familiares e pessoas ligadas à sua gestão. Entre eles, a então secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, também está na lista. Ela é apontada como braço operacional interno da facção; recebia indicações da facção e atuava para fraudar licitações e contratar via terceirizadas.

Também foi alvo o ex-prefeito Vitor Hugo, apontado como articulador inicial do esquema, responsável por firmar o pacto com a facção e estruturar o modelo do esquema.

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O primeiro registro de Fatoka na prisão foi em 2012. Naquela ocasião ele foi preso porque era o responsável por comandar uma facção criminosa paraibana, promover rebeliões em presídios e também por ser mandante de diversos homicídios violentos em João Pessoa naquela época.

Ele ficou preso de 2012 até 2018, quando houve uma fuga em massa de presos da Penitenciária de Segurança Máxima Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes, conhecida como PB1. Ele foi um dos 92 presos que fugiram após o uso de explosivos para a derrubada do portão principal.

Meses depois da fuga, Fatoka foi localizado em Alagoas e preso novamente. A Polícia Federal recebeu uma denúncia anônima de que traficantes estavam se passando por veranistas e estavam escondidos em uma casa de praia no estado.

No entanto, após a prisão, houve o relaxamento do cumprimento da pena por parte da Justiça, isso porque ele foi posto em liberdade para cumprir medidas cautelares, com o uso de tornozeleira eletrônica. Conforme a Polícia Civil, ele rompeu a tornozeleira e depois fugiu para o Rio de Janeiro.

Além dos crimes como assassinato e tráfico de drogas, Fatoka também é alvo de uma investigação por ter aliciado violentamento eleitores da cidade de Cabedelo, durante as Eleições de 2024. Mais uma relação entre o criminoso e o poder público da cidade.

Ele está na lista do Ministério da Justiça que elenca os criminosos de cada estado que são considerados mais perigosos e seguem foragidos.

De acordo com a decisão de Ricardo Vital de Almeida, Segundo os elementos reunidos na investigação, Fatoka está atualmente escondido no Rio de Janeiro, em local incerto, mas continua exercendo comando direto sobre as atividades do grupo na Paraíba, especialmente no município de Cabedelo

De acordo com depoimentos colhidos, especialmente o de uma integrante da organização, identificada como Ariadna Thalia, conhecida como ‘Arroto de Urubu’, Fatoka seria responsável por emitir ordens que abrangem desde o controle territorial armado em comunidades até a influência direta sobre a administração pública de Cabedelo.

No documento, é apontado que Fatoka tem participação ativa no direcionamento de contratações dentro da prefeitura, indicando pessoas para ocupar cargos,por meio de empresas terceirizadas, sendo essas indicações inclusive identificadas internamente com a sigla “FTK”, em alguns documentos.

Após os contratos de licitação serem firmados pelas empresas do esquema e a indicação da facção para pessoas ocuparem os cargos, esses recursos financeiros que seriam pagos retornariam total ou parcialmente ao núcleo político e ao núcleo da facção do acordo por meio de práticas como pagamento de propina, “folhas paralelas”, saques em espécie e outros métodos voltados à ocultação de valores, caracterizando possíveis esquemas de lavagem de dinheiro.

O material ainda aponta que pessoas diretamente ligadas a Fatoka, inclusive indivíduos tratados como próximos ou “de confiança”, teriam ocupado funções estratégicas na administração municipal, atuando como intermediários entre a facção e o poder público.

A sogra de Edvaldo Neto, afastado na operação, foi identificada no documento de autorização judicial, como sendo advogada de Fatoka.

De acordo com as investigações, os recursos públicos destinados ao pagamento dos postos de trabalho terceirizados voltavam aos líderes da organização e aos agentes politicos na forma de propina. Até mesmo uma “folha de pagamento paralela” chegou a ser implantada.

Segundo o documento, o modelo operava da seguinte forma:

A defesa de Edvaldo Neto informou por meio de nota que “o prefeito jamais manteve qualquer vínculo ou relação com facção criminosa, sendo tal imputação absolutamente inverídica e incompatível com sua trajetória pública”. Em nota, a defesa do prefeito ressaltou, ainda, que a medida é “de natureza provisória” e “que não implica qualquer juízo definitivo de culpa”.

Em um vídeo, publicado nas redes sociais na sexta-feira (17), Edvaldo reforçou que não faz parte de nenhum esquema e afirmou “não ter cometido nenhum ato ilícito”. Ele também afirmou que desde que assumiu o cargo de prefeito interino em Cabedelo, cooperou com instituições de segurança para coibir a ação de organizações criminosas dentro das organizações públicas

Por meio de nota, o ex-prefeito Vitor Hugo disse que “não conhece” Ariadna, “nunca viu, nunca trocou uma mensagem” e que ela “foi uma indicação” de concorrentes políticos “para fazer uma grande armação”. Ele afirmou ainda que é “vítima de uma perseguição política”.

Rougger Guerra, secretário da Prefeitura de João Pessoa, afirmou que foi surpreendido com a ação da Polícia Federal. “Esclareço, de forma categórica, que não tenho qualquer envolvimento com os fatos investigados, tampouco mantive qualquer relação com as situações apuradas”, disse. Ele afirmou ainda que entregou o cargo na administração da capital.

Cynthia Cordeiro, sogra do prefeito afastado e que ocupava uma secretaria na administração municipal, foi procurada e não respondeu.

Em nota, a Lemon afirma que pauta suas atividades “na ética, na qualidade de seus serviços e no respeito às normas, sobretudo aos princípios que regem a administração pública” e que antes de qualquer medida judicial “colocou-se à disposição para colaborar com as investigações”.

Em nota divulgada nas redes sociais, a mulher disse que atua como advogada na qualidade da Lemon e “sempre pautou todas as ações com absoluta retidão e lisura, exercendo o ofício com rigor técnico e respeitando as leis”. Disse ainda que “acredita na Justiça, estando tranquila e confiante na apuração dos fatos e que tudo será esclarecido à luz do direito”.

As defesas dos demais alvos da operação não foram localizadas.