A história de ‘Aparecida’: a indígena encontrada na PB séculos depois de seu povo ter sido considerado extinto

Foto de Aparecida no dia da sua captura — Foto: Reprodução/Arizaldo de Lima/Ian Cordeiro
Foto de Aparecida no dia da sua captura — Foto: Reprodução/Arizaldo de Lima/Ian CordeiroPintura "A Dança dos Tarairiú" de Albert Eckhout — Foto: Reprodução/Albert EckhoutMapa de José Elias Borges sobre os povos indígenas da Paraíba — Foto: Reprodução

Por g1 PB — No dia 19 de julho de 1974, uma mulher foi encontrada na Serra das Flechas, em Pedra Lavrada, no Seridó da Paraíba, após ser avistada furtando pequenos animais. Chamada de “Aparecida”, sua história se tornou um dos registros mais significativos da presença indígena no estado e é relembrada no Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo (19).

Aparecida chamou a atenção de pesquisadores por ser, supostamente, uma indígena Tapuia Tarairiú, povo que era considerado extinto desde a chamada Guerra dos Bárbaros, no final do século XVI, como explicou o historiador Ian Cordeiro, que conversou com Maria Elizabeth, uma das pessoas que conviveram com a mulher.

O pesquisador Humberto Bismark Dantas, professor do departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), comentou que a história de Aparecida pode estar relacionada à presença dos chamados caboclos bravos, indígenas que viviam em pequenos grupos transitando pela caatinga, após a colonização.

Inicialmente, Aparecida foi levada para a casa do prefeito da cidade na época, Manoel Rodrigues, que a confiou a uma de suas empregadas, Maria do Céu. Em 1975, um ano após ser levada para a cidade, chegou a fugir. Acredita-se que o motivo tenha sido o medo do marido de sua cuidadora que, quando bebia, se tornava violento.

Ela viveu por cerca de quatro meses na região chamada de Maxinaré, ou Mufumbo, a cerca de 7 km da cidade, e se abrigou em locas (cavidades naturais): uma no topo de uma serra, para observação, e outra em uma área mais baixa, à beira do rio.

Ali, a mulher se alimentava de alimentos que buscava em roçados de milho e bebia água de poços naturais, até ser recapturada por um agricultor chamado Gerson e levada para a casa de Maria Elizabeth, em uma comunidade rural chamada Retiro, onde permaneceu até a sua morte.

A história de Aparecida remete a relatos recorrentes na história brasileira, em que indígenas eram perseguidos e capturados por vaqueiros ou agricultores, práticas que, embora associadas ao passado colonial, no caso da mulher de Pedra Lavrada, ocorreu na segunda metade do século XX.

Quando foi capturada, aparentava ter por volta dos 60 anos de idade, tinha uma estatura um pouco acima da mediana e cabelos pretos e ondulados, os quais mantinha presos sob um pano na cabeça.

De acordo com a pesquisa de Ian Cordeiro e Emanoel Cordeiro, a mulher, que não falava português, vestia roupas feitas com fibra de caroá e tinha perfurações no nariz, nas narinas e na altura dos olhos, no queixo e nos calcanhares. Há relatos de que ela andava com um pequeno grupo, mas essas outras pessoas não foram encontradas.

Aparecida faleceu em 22 de setembro de 1981, no hospital de Parelhas, no Rio Grande do Norte, em decorrência de uma doença que atingiu seu sistema digestório.

Pesquisadores levantam a hipótese de que Aparecida seja uma remanescente do povo Tarairiú. Para Humberto Bismark Dantas, doutorando em Antropologia e professor do Departamento de Antropologia e Museologia da UFPE, Aparecida é o retrato de histórias que são contadas em comunidades indígenas e rurais de diferentes estados do Nordeste.

Outro questionamento sobre Aparecida é como ela teria sobrevivido tanto tempo “sem contato” com outras pessoas. Para o pesquisador Bismark Dantas, na verdade, os caboclos bravos não viviam em total isolamento.