O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) indeferiu o pedido apresentado pelo ex-ministro Cristovam Buarque que tentava anular o Congresso Nacional do Cidadania, que acontecerá nesta quarta-feira, dia 4 de março, em São Bernardo do Campo (SP).
A decisão reforça a legitimidade de Roberto Freire como presidente nacional do partido e encerra mais um capítulo da disputa interna iniciada após tentativas de afastamento da direção nacional em desacordo com o estatuto partidário.
O impasse teve início quando setores internos ligados ao ex-presidente Comte Bittencourt promoveram mudanças na condução partidária contestadas judicialmente por violarem normas estatutárias e legais da legenda.
Em decisão liminar concedida no início de dezembro de 2025, a Justiça restabeleceu Roberto Freire na presidência nacional do Cidadania, entendimento posteriormente mantido em sucessivas decisões pelo TJDFT, pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral.
A nova derrota judicial de Cristovam Buarque consolida o reconhecimento judicial da atual direção nacional e pavimenta o caminho para o congresso extraordinário que deverá reorganizar os diretórios estaduais e redefinir a estrutura de poder do partido em todo o país.
Renovação partidária e fortalecimento nacional
A reorganização interna ocorre em meio a um movimento de renovação política incentivado pela direção nacional, ampliando espaço para jovens lideranças e novos quadros partidários.
Em São Paulo, o diretório estadual é presidido pelo jovem vereador de São Bernardo do Campo João Viana. No Amazonas, o partido é comandado pelo deputado federal Amom Mandel, atualmente o mais jovem parlamentar da Câmara dos Deputados e o primeiro deputado federal autista em exercício no Congresso Nacional. Na Bahia, novas lideranças periféricas também passam a ocupar espaços de direção partidária, como a vereadora de Salvador Isabela Sousa.
Rio Grande do Norte no centro das articulações
No Rio Grande do Norte, o processo de reorganização partidária ocorre em meio à disputa entre o grupo político ligado ao ex-deputado estadual Wober Júnior — liderança histórica da legenda desde os tempos do antigo PCB — e setores alinhados diretamente à direção nacional.
Nesse cenário, o dirigente partidário Paulo Ovídio surge como um dos quadros com maior interlocução junto às lideranças nacionais e com crescente simpatia interna para assumir responsabilidades políticas na reestruturação estadual da sigla.
Responsável pela setorial nacional de Diversidade do Cidadania, Paulo Ovídio estará presente no Congresso Nacional desta quarta-feira participando das discussões estratégicas que definirão o futuro partidário.
Com atuação política iniciada ainda no período do PPS, Ovídio integrou as mobilizações relacionadas à ADO 26, ação apresentada pelo PPS/Cidadania ao Supremo Tribunal Federal que resultou na criminalização da homotransfobia no Brasil.
Alinhamento com a futura direção nacional
Nos bastidores nacionais, Paulo Ovídio é apontado como dirigente próximo ao deputado federal e líder do Cidadania na Câmara, Alex Manente, nome cotado para assumir a presidência nacional da legenda após o Congresso extraordinário.
Aliados destacam que o alinhamento político entre Ovídio e a futura direção nacional fortalece sua interlocução direta com a cúpula partidária e amplia sua capacidade de articulação institucional.
O dirigente participou ainda da transição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mantendo posição política independente e defendendo a construção de uma terceira via nacional como alternativa à polarização política brasileira, com apoio ao nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.
Possui ainda diálogo político transversal, tendo participado do processo de fundação da Rede Sustentabilidade e mantendo proximidade política com a deputada federal Heloísa Helena, apesar das divergências ideológicas.
Reflexos eleitorais e cenário potiguar
A reorganização partidária também dialoga com o cenário eleitoral do Rio Grande do Norte e com as discussões sobre a continuidade da federação com o PSDB, conduzidas no estado por lideranças como o deputado estadual Ezequiel Ferreira, diante das possíveis movimentações partidárias locais.
Nos bastidores eleitorais, setores ligados a Paulo Ovídio defendem alinhamento com o projeto político do prefeito Allyson Bezerra para o Governo do Estado, enquanto o grupo adversário tende a acompanhar o campo político aliado à governadora Fátima Bezerra.
Renovação, diversidade e representatividade
Aliados avaliam que uma eventual ascensão de Paulo Ovídio ao comando estadual poderá representar um marco político dentro do Cidadania, podendo torná-lo o primeiro homem gay a presidir um diretório estadual do partido no Brasil, especialmente no Nordeste — região historicamente marcada pela concentração do poder político em grupos familiares tradicionais e por desigualdades sociais persistentes.
A disputa interna no Rio Grande do Norte passa, assim, a refletir um debate nacional mais amplo sobre renovação geracional, inclusão política e democratização das estruturas partidárias brasileiras.
O Congresso Nacional do Cidadania desta quarta-feira deverá consolidar definitivamente a nova correlação de forças internas da legenda após a sequência de decisões judiciais favoráveis à atual direção nacional.


