Quadrilhas juninas nas escolas são símbolos de manutenção da tradição nordestina: ‘Muito feliz representando a nossa cultura’

Quadrilha junina de escola municipal de Campina Grande — Foto: Codecom PMCG / Divulgação
Quadrilha junina de escola municipal de Campina Grande — Foto: Codecom PMCG / DivulgaçãoGuilherme Isac e Gabriela Martins, noivos da quadrilha junina da Escola Municipal Padre Antonino — Foto: Iara Alves / g1Maria Eduarda é Rainha do Milho na quadrilha junina da Escola Municipal Padre Antonino — Foto: Iara Alves / g1Quadrilhas juninas escolares investem em teatro nas apresentações — Foto: Codecom PMCG / DivulgaçãoApresentação de quadrilha junina de escola municipal no São João de Campina Grande — Foto: Codecom PMCG / DivulgaçãoEnsaio de quadrilha junina na escola — Foto: Codecom PMCG / Divulgação

Por g1 PB — 💃🏻🕺🏻Da sola da sapatilha até o ponto mais alto do arranjo que enfeita a cabeça, quem dança em quadrilhas juninas se veste de alegria e dedicação. Os grupos, além dos espetáculos que se tornaram profissionais, são fortes expressões da cultura popular nordestina. Não apenas nos tablados e palcos das apresentações, mas é na escola onde – muitas vezes – essa tradição é consolidada. Em Campina Grande, cidade conhecida pelo “Maior São João do Mundo“, essa atividade é incentivada dentro da sala de aula.

👰🏼Ser noiva da quadrilha junina da escola era o sonho da Gabriela Martins, de 14 anos. E foi na companhia de uma mistura boa de sentimentos que ela concretizou essa vontade.

“Eu que pedi pra ser [noiva na quadrilha da Escola Municipal Padre Antonino, onde estuda]. É muito nervosismo e muita alegria de saber que é um dos papéis principais”, revelou com a voz toda delicada, como se tivesse incorporado a personagem de vez.

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💄Não podia ser diferente, cada detalhe foi pensado com muito carinho. Com antecedência, a Gabriela foi em busca do vestido, da maquiagem e do penteado perfeitos. Para o rosto, ela fez questão de chamar a atenção do público com pedrinhas e bastante brilho.

👗Embora seja a primeira vez que a garota veste branco para dançar “alavantu” e “anarriê”, foram muitas outras as ocasiões em que ela ensaiou meses antes de se apresentar com vestidos coloridos e típicos do São João.

👸🏽🌽Na mesma quadrilha junina, só que com uma função diferente, está a Rainha do Milho Maria Eduarda Carlos de Oliveira, de 13 anos. Essa é a primeira experiência dela – que já ganhou papel de destaque – em um grupo de danças juninas.

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Maria Eduarda também está vivendo essa atividade se divertindo muito. Mas para ela, não se trata só disso.

⏰E a euforia com certeza foi algo sentido pela adolescente no dia da apresentação mais importante. Prova disso é que mesmo tendo que se apresentar somente as 15h, a arrumação começou bem mais cedo, por volta das 7h, ou seja, oito horas antes.

💚👑💛O vestido que ela escolheu combina com a faixa e a coroa que ela carrega nos ombros e na cabeça, respectivamente. Os bordados e os babados são o destaque e dão movimento para a peça feita em verde e amarelo, que também são as cores dos grãos e da palha do milho.

💈O modelo foi escolhido com a ajuda da mãe dela, a Renata Carlos Barbosa, de 33 anos, que encarou a missão de achar a roupa perfeita para a filha. Além disso, ela ainda se preocupou com cabelo e maquiagem impecáveis. Juntas, as duas viveram a ansiedade que antecedeu a apresentação.

💭Renata também faz questão de incentivar que a filha participe de atividades que estimulem a valorização das tradições nordestinas e, que assim como ela, construa lembranças boas dessa época.

“Eu acho importante porque ela começa a entender a cultura. A gente quando era pequeno sempre dançou. Dancei quadrilhas por muitos anos. Eu deixei ela participar justamente para criar memórias”, reforçou.

A dedicação dos estudantes não inicia em junho. Meses antes as turmas começam a ensaiar. No caso da Escola Municipal Padre Antonino, esses encontros aconteceram três vezes por semana, nas terças, sextas e sábados.

Segundo a diretora da escola, Tatiane Nunes Ribeiro, os ensaios – liderados pelo professor de Artes – tomavam um turno inteiro. E para que tudo desse certo, as únicas exigências eram responsabilidade e comprometimento por parte dos alunos, já que esses momentos também foram considerados como atividades escolares.

E os pequenos fazem “dever de casa” direitinho. Quando a música começa tocar, todos incorporam dançarinos profissionais. O capricho é tão grande, que até teatro – como nas grandes competições – eles colocam em prática.

A origem das quadrilhas juninas é francesa, conforme explicou o professor de artes Lenaldo da Silva Ferreira. Na França, era uma expressão popular, dançada em pares, organizada em formações geométricas e envolvia uma série de movimentos coordenados.

Depois, a “quadrille” francesa, como era chamada, chegou em Portugal onde foi adaptada e incorporada às festas e celebrações locais. Com o processo de colonização do Brasil, elas ganharam as características do Nordeste brasileiro e foram encaixadas nas comemorações das festas juninas, associadas à música, aos fogos e outros elementos regionais e de outras culturas.

Segundo o professor, de modo geral, cada região do país teve um processo próprio de introdução da quadrilha junina no ambiente escolar como manifestação durante os festejos juninos e também no currículo de forma pedagógica.

“No caso de Campina Grande, tivemos a atuação da professora Lenira Rita Gomes que, inclusive, participou da criação do ‘Maior São João do Mundo’. Ela ficou conhecida por ter sido a criadora das quadrilhas juninas na cidade no final da década de 1970 e início dos anos 1980, incentivando a criação de quadrilhas em escolas e bairros da cidade. Grande foi sua contribuição para o cenário cultural principalmente nas escolas, fomentando competições e estimulando nossa cultura”, relatou o professor.

Desde então, as quadrilhas têm contribuindo para a preservação da identidade cultura nordestina desde a infância, no processo de aprendizagem, enquanto um recurso interdisciplinar e capaz também de construir capacidades também usadas fora de sala de aula.

“Ao ter o contato com o contexto histórico regional da quadrilha junina, o estudante passa a conhecer mais da sociedade que está inserido. A nossa história, a nossa arte, a força econômica no contexto da nossa festa junina de comemoração à colheita. O uso dos figurinos que tem ligação com aspectos europeus com a união de elementos regionais. As letras das músicas que contam a história do nosso povo – de trabalho, amor e resistência. Além disso, a forma como a quadrilha pode ser trabalhada, pode contribuir para desenvolver habilidades socioemocionais nas crianças e adolescentes, como a sociabilização, a cooperação, a paciência e o respeito”, destacou Lenaldo.

Assim, de acordo com o professor, as quadrilhas juninas se consolidaram como uma importante ferramenta de manutenção das tradições regionais, que cria um movimento de resistência para que as novas gerações continuem valorizando e mantendo a cultura nordestina.

“Uma escola comprometida, e que valoriza sua cultura local, trabalha com a inclusão da quadrilha junina junto de seus estudantes e comunidade escolar. É preciso mostrar às novas gerações o quão divertido, prazeroso e importante é a quadrilha junina, e como ela não ficou no passado, de algo que aconteceu e não existe mais. Em meio a tantas distrações que o mundo conectado proporciona, a escola tem essa missão para as novas gerações, de valorização, resistência e manutenção da tradição das nossas quadrilhas juninas”, pontuou.

Em Campina Grande, o município criou um festival voltado especialmente para as quadrilhas juninas das escolas da rede pública. O evento tem a parceria da Associação de Quadrilhas Juninas de Campina Grande (Asquaju).

Um dos principais objetivos do festival é reconhecer o trabalho feito pelas unidades educacionais no período junino. Outra proposta é institucionalizar os festejos das escolas com o evento, que estabelece critérios de competição, assim como nas quadrilhas juninas profissionais. Os vencedores do festival recebem troféus e os outros grupos participantes ganham medalhas de participação.

As apresentações acontecem na pirâmide do Parque do Povo, local onde acontecem os mais de 30 dias de festa do São João de Campina Grande. Ao todo, nesta primeira edição, 466 estudantes de nove escolas municipais participam do festival.

O tema central da competição, neste ano, está voltado para os 160 anos de Campina Grande, com subtemas que abordam a cultura e os artistas nordestinos. Conheça todos eles abaixo:

Escola Municipal CEAI Dr. João Pereira de Assis, com 20 pares e 40 estudantes:

Escola Municipal Anísio Teixeira, com 22 pares e 44 estudantes:

Escola Municipal Padre Antonino, com 25 pares e 50 estudantes:

Escola Municipal Padre Emídio Viana (anos iniciais), com 25 pares e 50 estudantes:

Escola Municipal Padre Emídio Viana (educacão de jovens e adultos), com 20 pares e 40 estudantes:

Escola Municipal Amaro da Costa, com 25 pares e 50 estudantes:

Escola Municipal Maria das Vitórias Pires Uchoa Queiroz, com 24 pares e 48estudantes:

Escola Municipal Anis Timani, com 25 pares e 50 estudantes:

Escola Municipal Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, com 25 pares e 50 estudantes:

Escola Municipal Lafayete Cavalcanti, com 22 pares e 44 estudantes: