Adolescente de 14 anos disse que tem se sentido melhor de saúde a cada dia, mas que prefere não pensar sobre o que aconteceu no dia do ataque à sua família — Foto: Arquivo pessoal

Por Iryá Rodrigues, G1 AC — A adolescente boliviana de 14 anos que viu a mãe e os dois irmãos serem mortos após ser estuprada por um acreano falou pela primeira vez desde a tragédia ocorrida na fronteira do Acre com a Bolívia no último dia 13 de setembro. Ao G1, ela contou que evita pensar em tudo que passou no dia do ataque à família.

Quando perguntada se sente muita falta da mãe e dos irmãos, a adolescente ficou em silêncio por alguns segundos e depois disse:

“Não me faz essa pergunta não, pelo amor de Deus. É difícil para mim responder isso. Quando fico sozinha, fico pensando em tudo que aconteceu, mas tento não lembrar. Tem uma psicóloga e ela falou que quando eu estiver me sentindo sozinha, posso falar com ela. Estou preparada para falar o que aconteceu, mas para polícia.”

A menina também levou quatro tiros no dia do ataque e ficou internada no pronto-socorro de Rio Branco por 40 dias. Ela teve alta médica no último dia 23 de outubro após passar por três cirurgias, sendo uma no braço assim que chegou no hospital, ainda em setembro, e outras duas no dia 15 de outubro, no braço e no maxilar.

Em 18 de setembro, ela apresentou alterações nos exames e, por segurança, foi levada para uma UTI do Hospital da Criança para manter a estabilidade do quadro clínico. No dia 1º de outubro, voltou ao pronto-socorro da capital para aguardar pelas novas cirurgias.

Sobre a recuperação, ela disse que tem se sentido cada dia melhor e que consegue fazer tudo sozinha, mesmo com o braço esquerdo ainda imobilizado.

Para preservar a identidade da vítima, o G1 não vai identificá-la e nem o pai dela.

Acolhidos no abrigo

A adolescente e o pai estão em um abrigo que fica em Rio Branco e estão sendo acompanhados por uma equipe do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Infância, Educação e Execução de Medidas Socioeducativas (Caop) do Ministério Público do Acre.

“Eu estou bem, graças a Deus. Meu braço está melhorando cada dia mais, mas ainda tenho que fazer mais uma cirurgia no braço. Mas, eu faço tudo; tomo banho sozinha, coloco minha roupa sozinha, não sinto mais dor e estou fazendo fisioterapia. Mudou tudo na nossa vida, agora precisamos da ajuda das pessoas, então agradeço muito às pessoas que estão me ajudando. Agradeço a Deus que eu estou com vida, que me salvei”, disse a menina.
O agricultor boliviano de 49 anos, pai da adolescente, afirmou que a menina deve ser ouvida pelo Ministério Público ainda nesta semana. Ele voltou a falar que quer que os presos sejam extraditados para Bolívia.

“Graças a Deus nunca nos faltou nada. Ela [filha] não está mais chorando e agora tenho que pensar no futuro da minha filha. Tenho receio que daqui a um tempo ela tenha problemas psicológicos, fique traumatizada, porque ela é muito nova. Não vou mais voltar com ela para lá [onde moravam], vou buscar um outro lugar, mas não quero falar onde, porque temo pela vida da minha filha. Não volto mais para lá. Quero que eles sejam extraditados, tudo que fizeram foi na Bolívia e quero que eles paguem na Bolívia”, afirmou o agricultor.

Relembre o caso

O crime ocorreu no último dia 13 de setembro, na área de fronteira entre o Acre e a Bolívia, depois que o pai da menina flagrou um acreano estuprando a filha e decidiu amarrá-lo em uma árvore para chamar a polícia.

Parentes do suspeito de estupro então apareceram para resgatá-lo e atacaram a família boliviana em sua propriedade, que fica perto das cidades de Acrelândia e Plácido de Castro, no Acre. Após atirar contra a família, os suspeitos ainda queimaram a casa. A mãe e dois filhos morreram e a adolescente foi baleada, mas conseguiu ser socorrida.

Prisões e apreensões

A Polícia Civil do Acre investiga o caso. Inicialmente dois homens foram presos em flagrante, um deles acabou sendo solto e o outro foi levado ao presídio de Rio Branco.

No dia 17 de setembro, a Polícia Militar apreendeu um menor de 17 anos e conduziu duas pessoas investigadas pela morte da família para a delegacia de Acrelândia. No final do mês de setembro, a Justiça acreana negou o pedido de liberdade feito pela defesa do adolescente.

Na última sexta (16), quatro pessoas foram presas na zona rural da cidade de Acrelândia, no interior do Acre, suspeitas de participar da morte da família boliviana.

O cumprimento dos mandados de prisão preventiva deles foi feito pela Polícia Civil após vários dias de investigações. A família estava em um acampamento montado em uma área de mata fechada.

O delegado Samuel Mendes, responsável pelas investigações, disse ao G1 que entre os quatro presos estão o pai, um casal de filhos e um genro. Do grupo, apenas o pai não teria participado diretamente do crime, mas ele seria o “líder”. A reportagem tentou contato com o delegado nesta quinta-feira (29) para atualizar a situação da investigação, mas não obteve resposta até última atualização desta reportagem.

‘Me levaram tudo’

“Me levaram tudo e mais a vida dos meus dois filhos e da minha mulher”, contou o agricultor boliviano logo após o crime, quando a filha deu entrada no pronto-socorro de Rio Branco.

O pai disse que confiava nos acreanos que tinha contratado para trabalhar na sua casa e que os conhecia há cerca de cinco anos.

Depois do ocorrido com sua família, ele soube que os homens já tinham se envolvido em outras situações de violência.

“Estamos muito abalados realmente. Eu tinha confiança neles, contratei para trabalhar lá na minha propriedade, conhecia há cerca de cinco anos e eles estudaram tudo, até como minha mulher guardava o dinheiro”, disse.

Depoimento da adolescente

O G1 teve acesso a um áudio da adolescente contando como ocorreu a chacina. O trecho da conversa é parte do depoimento dela dado à polícia. Muito abalada e chorando, ela detalha como os criminosos agiram.

“Primeiro dispararam na minha mãe e depois disparam em mim, depois dispararam no [nome de um dos irmãos] e depois no meu irmão [nome do outro irmão], que estava atrás de uma árvore.”

A gravação é interrompida quando a adolescente começa a chorar.

Autoridades bolivianas

O consulado da Bolívia no Brasil informou ao G1 que está acompanhando o caso, mas que, por recomendação da polícia, não poderia comentar sobre os procedimentos. No dia 16 de setembro, o consulado chegou a dizer que não sabia do crime.