Com o aumento da frequência de turistas na alta temporada, fica mais evidente da falta de estrutura de um dos cartões postais da cidade — Foto: José Aldenir/AgoraRN

Por Marcelo Hollanda, Portal Agora RN — Todos os anos, religiosamente, Mariluce Clein e Leoni Melo, amigas de longa data e companheiras de repartição pública em Pato Branco, no Oeste do Paraná, tiram duas semanas por ano para conhecer uma capital do Nordeste.

Desta vez, Natal foi escolhida. Na quinta-feira da semana passada, um dia abafado, com rápidas pancadas de chuva, as duas caminhavam tranquilamente pela orla de Ponta Negra, ainda comemorando a promoção da operadora CVC que permitiu a elas cruzassem o País para conhecer o Morro do Careca, um dos cartões postais da capital potiguar.

As paranaenses ainda não sabem, mas a praia que elas tanto elogiaram pelas “águas quentinhas”, coisa que não existe no Sul, vive sérias deficiências de infraestrutura que a maioria dos turistas descobre em pouco tempo, mas que os “nativos” já conhecem muito bem.

Mariluce Clein e Leoni Melo, turistas paranaenses, elogiaram as “águas quentinhas” de Ponta Negra. Foto: José Aldenir/Agora RN

Fora do estreito guarda-chuva de proteção dos hotéis e dos restaurantes, onde o turista pode se socorrer do mínimo necessário, que são um quarto e um banheiro descentes, a verdade é que as intervenções pontuais da prefeitura ainda não foram capazes de resolver a maioria dos problemas da orla.

Uma situação que levou o próprio presidente do Sindicatos dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares, Habib Chalita, na semana passada, a declarar seguinte: “Nosso medo é que Ponta Negra deixe de ser a praia do natalense e, quando o local não é bom para quem mora nele, o que vai pensar o turista”.

Ele se referia aos problemas clássicos, como escadas de acesso danificadas ou improvisadas, água servida estourando na calçada depois uma chuva qualquer, esgoto escorrendo na praia, bem perto do Morro do Careca, ratos roubando comida dos turistas que se aventuram pelas pedras, falta de lugar para estacionar e por aí afora.

Como não bastasse, há muitos ressentimentos entre os ambulantes que disputam espaço na menor orla do Nordeste em extensão. Pouco espaço para caber 38 quiosques licenciados no calçadão e 70 barracas com seus guarda sois abertos ao longo da praia.

Menos nas proximidades do Morro do Careca, onde no domingo retrasado um caminhão da Secretaria de Serviços Urbanos (Sensur) fez a limpa, carregado mesas, cadeiras e espreguiçadeiras de praia e criando perímetro nas imediações.

Naqueles poucos metros, a exemplo do que já aconteceu no ano passado e nessa mesma época, os fiscais não conversaram. “Eles iam mandando os clientes se levantar, enquanto recolhiam tudo e ameaçavam com multas entre R$ 2 mil a R$ 8 mil”, diz o ambulante Rildo Souza, 42 anos.

Mal a reportagem começa a ouvir um barraqueiro, outros foram se aproximando para reclamar: “Tiraram o nosso ganha pão”.

Em geral, são de moradores da Vila de Ponta Negra que, entre um bico e outro, tiram o sustento na praia, sendo que na alta temporada deixam qualquer ou afazer para se dedicar exclusivamente aos turistas.

Nessa época, realmente, eles triplicam seus lucros. Pelos carros estacionados nas poucas vagas disponíveis do calçadão é possível saber a razão. Carro com placa de Fortaleza, Pernambuco, João Pessoa, mas também de Minas, Rio, São Paulo e Santa Catarina.

O ambulante Francisco de Assis Silva, 32 anos, diz que os turistas que frequentam a orla de Ponta Negra, vindos dos hotéis das proximidades, fazem dali a primeira parada antes de estender a estadia por outras praias, principalmente se é a primeira vez que vêm para cá.

“A medida em que eles vão conhecendo melhor a orla é que o bicho pega, principalmente quando alguém, aqui e ali, avista o primeiro gabiru nas rochas ou sente a catinga dos banheiros”, diz ele.

Os próprios donos de algumas barracas pagam do bolso para que banheiros do calçadão sejam limpos, mas o serviço deixa a desejar.

“Menininho”, apelido de um faz tudo da praia, recebe R$ 50,00 dos ambulantes por dia para limpar banheiros, mas como o entra e sai é muito grande nem ele dá conta do serviço. Mesmo assim, as chaves da maioria dos banheiros ficam com os comerciantes, que cobram pelo uso de R$ 2 a R$ 3 reais.

Enquanto nas praias do Meio e do Forte não se cobra por um guarda-sol e uma cerveja “litrão” custa entre R$ 10 a R$ 12, na orla de Ponta Negra só o direto à sombra custa R$ 20, um valor que deixa de existir quando o ocupante solicita um dos poucos pratos do cardápio, que giram ao redor dos R$70. Em média, um coco sai a R$ 4.

Empresários preocupados

Definitivamente, a situação da orla de Ponta Negra não é das mais confortáveis tanto, que o principal cartão postal de Natal foi tema, na semana passada, de reunião com a presença de representantes do trade turístico da capital com o presidente da Câmara de Vereadores, Paulinho Freire (PSDB).

Participante do encontro, o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes Bares e Similares do Rio Grande do Norte (SHRBS), Habib Chalita, alertou que a insegurança é um dos principais problemas enfrentados na região.

Já Paulinho Freire foi mais enfático. Para ele, Ponta Negra “talvez seja a pior orla das capitais do Nordeste”, ao afirmar: “Não podemos deixar que chegue a um ponto crítico que não se tenha solução”.

Paulinho Freire se comprometeu com os participantes em articular uma reunião com o prefeito de Natal e alguns secretários municipais de áreas relacionadas ao tema para buscar soluções e iniciativas para Ponta Negra.

No entanto, restando apenas uma semana para o fim da alta temporada, poderia ser uma notícia melhor.