“De Marielle a João Maria, a escalada da violência política no Brasil” foi o tema predominante - Foto: Ney Douglas

A violência política decorrida da vontade de calar quem pensa diferente foi debatida na Assembleia Legislativa, nesta quarta-feira (13), por iniciativa do deputado estadual Sandro Pimentel (PSOL). Com o tema “De Marielle a João Maria, a escalada da violência política no Brasil”, predominaram na audiência pública não só as falas sobre os assassinatos da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, e do cabo João Maria Figueiredo, mas também os pedidos de justiça por tantas violências cometidas contra negros e pobres no país.

O propositor da audiência, o deputado Sando Pimentel, iniciou as atividades com o apelo de que não se compactuasse com a escalada da violência política no país. Segundo ele, nos últimos 6 anos, houveram pelo menos 196 mortes políticas no Brasil.

Primeiro o parlamentar lembrou do crime cometido contra o policial militar João Maria Figueiredo, integrante do movimento Policiais Antifacismo, que foi assassinado a tiros no final de 2018. “Nós vivemos num país onde temos uma polícia militar que mais mata no mundo e também a polícia militar que mais morre. Algo está errado e tem que ser feito. Índices como esse nos traz uma preocupação enorme. João Maria decidiu participar do movimento dos Policiais Antifacismo. Não sei se por este ou por outros motivos, mas ele foi covardemente e brutalmente assassinado e não iremos descansar enquanto não virmos esse crime solucionado”, discursou. Ele aproveitou para anunciar a presença de Daniele Oliveira, esposa do ex-policial João Maria Figueiredo, na audiência pública.

Em seguida, Sandro Pimentel lembrou do assassinato de Marielle Franco, vereador do Rio de Janeiro, defensora de causas sociais, assassinada em 14 de março de 2018 juntamente com o motorista dela, Anderson Gomes. “Nós sabemos que independente do que motiva o crime, todo crime é crime, toda vida retirada é cruel, mas o caso de Marielle tomou corpo e memória no Brasil e no mundo. Marielle era uma daquelas pessoas que não aceitava as injustiças sociais, a homofobia, o machismo. Nós sabemos que Casa Legislativa como esta aqui não foram Casas feitas para gente pobre trabalhadora, muito menos foram feitas para mulheres negras faveladas. Basta contar quantas mulheres temos nos parlamentos. Já são poucas, imagine negras e pobres. E as políticas públicas não foram feitos para fortalecimento das mulheres”, disse.

Sandro Pimentel afirmou ainda que essa audiência trouxe um grau de importância muito maior porque, no dia anterior à audiência pública, as forças policiais prenderam dois acusados de matar Marielle. “Ninguém aqui concorda com qualquer violência, mas essa tem uma repercussão para pessoas que defendem um mundo com menos desigualdades sociais. Nós também queremos saber quem matou João, Maria, José, Francisco, mas também queremos saber quem mandou matar Marielle e o porquê. Nós não descansaremos”, disse.

A vereadora de Natal, Divaneide Basílio (PT), também deu a contribuição dela ao debate. “Essa dor por Marielle é uma dor tão profunda. Quando matam uma feminista negra não é uma coincidência, isso tem a ver com o que nos liga, com o que nos traz até aqui. Não é uma coincidência matarem e espancarem um jovem por ser negro no supermercado ou matarem pessoas negras todos os dias nas periferias. Por que mataram Marielle? Porque ela representava todas essas pessoas e a representatividade assusta. Perder Marielle significa um pouco a perda da nossa luta. Me perguntaram se eu não tenho medo de ser uma mulher negra vereadora. Eu não tenho medo, eu tenho orgulho. Não conseguirão nos matar porque quando matarem uma, nascerão milhares”.

Para a militante feminista do Coletivo Leila Diniz, Cláudia Gazola, nesse contexto político de retrocessos, de muita violência institucional, física ou simbólica, é fundamental uma audiência como esta onde as mulheres têm voz. “Nós acreditamos, enquanto feministas, que sem a voz não é possível fazer transformação social. Nós temos muitos desafios entre nós. Precisamos construir consensos fortes nessa sociedade. A realidade de desigualdade tem maior impacto na periferia, nas mulheres negras periféricas, mas são essas mulheres que assumem um lugar de contexto e de centralidade. Somos nós as mulheres periféricas que somos centrais e que trazemos estratégias fundamentais para transformar essa realidade”, falou.

A psicóloga do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFRN, Luana Isabelle Cabral dos Santos, também opinou sobre o tema. “Eu estava pensando sobre os últimos acontecimentos e lembrando que até 2018, datas como a da morte de Marielle eram dias normais. Depois de 2018, isso me faz lembrar da fragilidade do nosso Estado e da nossa democracia. As execuções de Marielle e de Anderson também se dão nas periferias de nosso país. É preciso que lembremos de várias Marielles e Figueiredos que existem no nosso país. A gente não quer viver num país onde só existe democracia para algumas pessoas, queremos um país democrático para todos”, explicou.

Militante do PSOL/RN e do coletivo feminista Juntas, Camila Barbosa dos Santos, enfatizou que é sempre muito difícil para centenas de pessoas falarem sobre Marielle. “Eu não tinha nenhuma relação pessoal com Marielle, mas mesmo quando vou falar sobre ela minha voz embarga. A verdade é que as pessoas se sentem assim porque Marielle nos representava. É tão difícil hoje transformar nosso luto em luta. A força que a gente tira para acordar todos os dias e lutar contra esse sistema é a mesma força que Marielle tinha e essa dor coletiva que a gente sente hoje tem muito potencial para transformar nossa luta em mobilização social. Marielle é a cara da resistência e da oposição a esse Governo. Não é à toa que no último carnaval fizemos uma manifestação tão bonita e era a cara de Marielle que aparecia nas nossas representações”.

A representante do Mover Plataforma Sindical, Maria Aparecida Dantas, alertou para a necessidade de cada dia mais refletir sobre o que levou ao assassinato de Marielle. “Temos que fazer essa reflexão principalmente diante da conjuntura que nós nos encontramos. Falar de Marielle é uma coisa que nos traz à alma muita dor. Eu sinto, enquanto mulher, que nós temos que cada vez mais nos organizar e lutar pelos nossos espaços e nossos direitos. Quem rasga uma placa com o nome de Marielle não é capaz de ter uma história como a dela. Ela representava para nós as minorias que vivem sendo oprimidas e que não encontram respaldo no Estado brasileiro”, explanou. A convidada lembrou que no dia posterior à audiência faria um ano do assassinato. “A justiça se apressou para dar alguma resposta, mas nós vamos continuar aqui querendo saber quem mandou matar Mariele e qual era o objetivo. Nós precisamos sim que a justiça nos dê a resposta, e se é quem está no poder, nós temos a obrigação de tirar quem está no poder”.

A representante do Movimento dos Policiais Antifacismo, Rita de Cássia Silva, voltou a fala dela ao crime cometido contra o policial Figueiredo. “Falar sobre Figueiredo para o movimento não é fácil. É uma dor que não passa. Vale lembrar que o movimento ao qual ele pertencia é voltado para ciência, não é um movimento voltado para o achismo e queria dizer que o grupo que compõe o movimento está preparado para conversa. Marielle e Figueiredo representam a vulnerabilidade. São os negros que morrem. Esses espaços não aceitam a gente”, declarou.

Para o vereador de Natal, Maurício Gurgel (PSOL), o crime contra Marielle foi um crime político, mas também racista. Ele também afirmou que o crime contra João Figueiredo merece justiça e aproveitou a oportunidade da fala sobre violência para cobrar do legislativo e executivo estaduais o pleito de uma delegacia na zona Oeste de Natal. Por fim, informou aos presentes que um pedido feito pelo deputado estadual Sandro Pimentel será atendido. Avisou que irá, juntamente com a vereadora Divaneide, homenagear o Cabo Figueiredo nomeando uma rua de Natal.