Chacina do Rangel marcou vida de profissionais que acolheram crianças sobreviventes do crime

De posse de um facão, Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira invadiu a residência e desferiram golpes contra membros da família. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco
De posse de um facão, Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira invadiu a residência e desferiram golpes contra membros da família. — Foto: Reprodução/TV Cabo BrancoAtualmente existe uma quadra para recreação das crianças do bairro no local onde havia a casa em que aconteceu a Chacina do Rangel. — Foto: Walter Paparazzo/G1Assistente social Antônio de Pádua atuava como conselheiro tutelar na época da chacina — Foto: Reprodução/TV Cabo BrancoCirurgião bucomaxilofacial Marcos Paiva atendeu à criança que sofreu golpes de faca. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco'Ele foi me dando uma lição de vida', pontua a assistente Teresa Urbano. — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco

Por g1 PB — A “Chacina do Rangel” – crime que aconteceu há 15 anos em que foram assassinados pai, mãe e três crianças em João Pessoa – foi uma lição na vida de assistentes sociais e equipe médica que atenderam aos sobreviventes da noite que marcou definitivamente o endereço da antiga casa simples onde hoje existe uma quadra para recreação das crianças do bairro.

A história que marcou não só os familiares dsa vítimas, mas também a vida dos profissionais que, de algum forma, foram envolvidos no acolhimento das crianças que sobreviveram à noite do dia 9 de julho.

O assistente social Antônio de Pádua, conselheiro tutelar na época do crime, relembra o momento em que deu a notícia a uma das crianças de que a mãe também não tinha sobrevivido. “Primeiramente, fomos na escola em que eles estudavam para conversar um pouco com a diretora, entender a situação. Depois, fui na casa deles com uma psicóloga”, conta.

“Eu cheguei pra ele e disse: ‘você já plantou alguma coisa? Sabe como é que se faz, como nasce uma plantinha?'”, perguntou ao menino. “Papai do céu pegou duas sementinhas, que foram seu papai e sua mamãe, colocou aqui na Terra, ela cresceu, cresceu, cresceu e gerou muitos frutos, que foram você e seus irmãos. E hoje papai do céu precisou dessa plantinha”, relembra ele.

A outra criança, que na época tinha 7 anos, sofreu golpes de faca e foi levada para o Hospital de Trauma. O cirurgião bucomaxilofacial Marcos Paiva, que o atendeu, tem gravado, até hoje, o olhar da criança. “Ele tava com um olhar vítreo, perdido no tempo e no espaço. Aquele olhar marca a pessoa, fica gravado, né?”, diz.

Segundo ele, a criança chegou ao hospital com um ferimento profundo, até o osso da mandíbula. “Era de extrema gravidade devido à possibilidade de ter atingido alguns vasos da região do pescoço. Na sala de cirurgia, a comoção tomou conta de todo mundo que tava ali. A criança passou a ser tratada como um filho de cada um”, conta.

Quando recebeu alta do hospital, a criança foi levada para a casa da avó materna, onde passou a viver com o irmão mais velho, de 14 anos, que sobreviveu à chacina porque se escondeu embaixo da cama.

Antônio de Pádua, que na época era conselheiro tutelar, acabou criando um vínculo afetivo com as crianças. “No dia das crianças, eu dei um videogame para eles, que era do meu filho. Passei pra eles porque era o que eles queriam”. “Mas depois desse fato, eu não concorri mais à eleição do Conselho Tutelar. Esse caso mexeu bastante comigo”, fala.

Anos depois, a assistente social Teresa Urbano estava atendendo no CRASS do Cristo quando se deparou com a crueldade da história daqueles meninos. Um deles foi ao CRASS para fazer o Cadastro Único. Durante a entrevista, ao responder perguntas sobre sua trajetória, Teresa descobriu que a mãe, o irmão e seus irmãos tinham morrido.

“Por ele ser um menino jovem, eu perguntei: ‘meu filho, o que aconteceu que morreu todo mundo na sua casa?’. Ele olhou pra mim e fez assim: ‘eu sou da Chacina do Rangel”, lembra a assistente social. “Conforme ele falava, eu fui vendo que eu não tinha um problema. Naquela época eu também tava passando por um momento difícil, mas perto do dele não era nada. Ele foi me dando uma lição de vida”, pontua Teresa.